Na semana mais grave da pandemia de Covid-19 no Brasil, duas cidades brasileiras viraram notícia por motivos opostos: Araraquara (SP), por conseguir zerar a fila de espera por internação em seus hospitais, e Uberlândia (MG), por ver seu sistema de saúde colapsar, levando pacientes a esperar sete dias até serem internados.

O que faz com que os dois municípios estejam em situações tão diferentes? Na localidade paulista, o prefeito Edinho Silva (PT) ouviu a ciência e adotou as medidas necessárias para salvar vidas, incluindo o lockdown. Na cidade mineira, o prefeito Odelmo Leão (PP) acreditou no discurso irresponsável de Bolsonaro, resistiu às medidas de isolamento e apostou na distribuição gratuita de cloroquina e ivermectina, dois remédios que cientistas já provaram não funcionar contra o coronavírus.

O caso de Araraquara

Em fevereiro, Araraquara foi surpreendida por um surto da variante brasileira do coronavírus, a variante P1, que afeta de forma mais grave até mesmo os jovens. Assim, entre o dia 1º e o dia 6 daquele mês, a taxa de ocupação de leitos saltou de 56% para 84%. No dia 15, a taxa de ocupação chegou a 100%.

Diante dessa situação, em 21 de fevereiro, a Prefeitura de Araraquara aumentou as restrições para atividades não essenciais e circulação de pessoas, adotando o bloqueio ou lockdown, com funcionamento apenas de farmácias e unidades de saúde de urgência e emergência.

Entre 21 de fevereiro e 10 de março (17 dias), a média móvel diária de novos casos de Covid-19 caiu de 189,57 para 108, uma redução de 43,02%. E, nesta sexta-feira (18), Edinho Silva anunciou que não há mais ninguém na fila de espera por um leito na cidade desde o dia 8. “Estamos há 10 dias sem nenhum paciente nas nossas unidades aguardando internação, que é o que mais queríamos. A redução de óbitos vai demorar um pouco ainda, porque os óbitos de hoje são uma fotografia do que aconteceu na primeira quinzena de fevereiro”, explicou ao UOL.

“Araraquara é um dos exemplos atuais de como medidas de restrição de atividades não essenciais podem não só evitar o colapso ou mesmo prolongamento dessa situação nos serviços e sistemas de saúde, resultando na redução da transmissão, casos e óbitos, protegendo a vida e saúde da população”, escrevem os especialistas do Observatório Covid-19 em seu mais recente boletim sobre a pandemia.

O caso de Uberlândia

Em Uberlândia, a situação foi e continua sendo bem diferente. Desde o começo do mês, a rede municipal mantém taxa de 100% de ocupação nos leitos e tem filas de espera por vagas de UTI que demoram até sete dias, informa a Folha de S. Paulo.

Reportagem da Revista Piauí mostra que a cidade mineira é um triste exemplo de “como o Brasil vai levando a pandemia do coronavírus”. Em julho do ano passado, por exemplo, quando o município chegou a ter, temporariamente, mais mortes que a capital Belo Horizonte, mesmo com população quatro vezes menor, o prefeito Odelmo Leão anunciou novas medidas: distribuição gratuita de cloroquina e ivermectina e liberação de funcionamento de feiras livres e lanchonetes.

Leão continuou na cartilha de Bolsonaro. Atendeu pedidos de empresários para não fechar atividades não essenciais e foi à Justiça sempre que pôde para continuar com a estratégia. Em setembro de 2020, obteve no Supremo Tribunal Federal (STF) o direito de reabrir bares e restaurantes. E, em outubro, anunciou a saída da cidade do Minas Consciente, plano contra a pandemia elaborado pelo governo estadual.

Resultado: em 2 de março de 2021, o prefeito admitiu que o sistema de saúde de Uberlândia entrou em colapso. “Com 100% dos leitos de UTI ocupados, 184 pacientes esperavam vagas abrirem, e outros já tinham sido transferidos para cidades próximas”, informa a Piauí.

Dois dia depois, em 4 de março, Jair Bolsonaro visitou a cidade, onde discursou para apoiadores. “Se todo mundo ficar em casa, vai morrer todo mundo de fome”, repetiu, como de praxe, sem usar máscara. Ao seu lado, estava Leão, dando sinais de que começa a ver a realidade. O prefeito tapava o nariz e a boca com um modelo N95.

Da Redação, com Revista PiauíFolha de S. Paulo e UOL