Em editorial na revista Carta Capital o icônico jornalista Mino Carta fala do pontificado do Papa Francisco em favor dos pobres e de combate à guerra, à intolerância e à especulação financeira.

 

O único estadista
Por Mino Carta

O ex-conselheiro de Donald Trump, Steve Bannon, acaba de apontar o inimigo do progresso humano, da própria civilização: o papa Francisco. Permito-me imaginar a aprovação imediata de Olavo de Carvalho. Na edição de 5 de dezembro passado, no editorial, escrevi que o pontífice argentino teria de ser o maior desafeto do governo Bolsonaro.

Escrevi então: “Nesta quadra da história do mundo, o papa é meu herói, o estadista reformador da Igreja Católica, depois de longo pontificado de João Paulo II, o “santo” de Ratzinger que eu creio envolto nas chamas do Inferno. O IOR, banco do Vaticano, sob a batuta de Wojtila e do seu lugar-tenente Marcinkus, esmerou-se em lavar dinheiro sujo das mais variadas procedências, mafioso inclusive, enquanto esvaía em perfeito silêncio o escândalo da pedofilia sacerdotal e a devassidão da Cúria Romana devolvia o Vaticano à época dos Borgia.

“Francisco hoje é a voz da resistência aos falsos profetas do neoliberalismo e da violência da ultradireita, contra os fanáticos do Apocalipse e os graúdos donos do mercado. Suas palavras têm a força do açoite brandido por Cristo ao expulsar os mercadores do Templo. Do Brasil de Bolsonaro, Bergoglio só pode ser o maior inimigo.”

O objetivo de Francisco é voltar aos primórdios do cristianismo, quando a palavra de Jesus ainda ecoava e a Igreja Católica não havia se tornado a mais perfeita monarquia por direito divino.

É uma dura refrega que ele combate contra a resistência de quantos aplicam políticas destinadas a alvejar os pobres a favor dos ricos. No caso do Brasil, a situação consegue ser ainda pior. Enquanto cresce o desequilíbrio social, o País em colapso está à venda a preços de banana e o próprio Estado foi privatizado.Fermenta o ódio racial e de classe entre titulares e reservas da casa-grande em relação a quem habita a senzala sem reagir, e a todos os pregadores da igualdade.

Esta é palavra-chave: igualdade. Por aqui cultivamos o abismo de maneira cada vez mais explícita. Escritores como Tolstoi já disseram que se Cristo voltasse à Terra seria novamente crucificado. O povo humilhado e ofendido sofre em silêncio, resignado como sempre. Pergunto que aconteceria se no carro crivado por 80 balas no Rio estivesse instalada uma família abastada? Dizem entredentes os meus botões: estaríamos até hoje a falar do assunto. Pergunto ainda: em qual país o episódio, ricos ou pobres os ocupantes do veículo, o fato deixaria de provocar um largo momento de comoção nacional?