Com a negligência de Bolsonaro, a falta de investimento no SUS e desvalorização dos profissionais, país é recordista mundial em número de casos e óbitos de profissionais de saúde. Presidente vetou benefício sos profissionais de saúde afetados pela pandemia.

 

Raimundo e mais 9 profissionais da enfermagem, que perderam suas vidas de ontem para hoje, vão elevar o número total de óbitos entre estes trabalhadores de 341 para 350, segundo o Observatório da Enfermagem, site criado pelo Conselho Federal da categoria (Cofen) para concentrar os números de infectados, mortos e internados.

Os óbitos entre estes profissionais quase triplicaram em três meses. Em maio eram 130 e o Brasil já era recordista mundial. A triste e desonrosa – para o país – medalha de ouro ainda é nossa, segundo o Cofen. Os Estados Unidos e a Itália, países que foram epicentros da pandemia do novo coronavírus, juntos, registraram 204 óbitos de enfermeiros, segundo dados de julho do National Nurses United e Federação Nacional dos Enfermeiros da Itália (FNOPI).

A negligência do governo de Jair Bolsonaro (ex-PSL) gera comportamentos de risco na sociedade, que tem a sensação de que a doença não é tão grave e intensifica o afrouxamento do isolamento social. Isso aumenta o risco do número de óbitos e casos da doença entre a população e com isso os profissionais de saúde ficam mais expostos, se contaminam e morrem mais.

A afirmação do diretor financeiro do Cofen e enfermeiro em Brasília, Gilney Guerra, sobre o desgoverno de Bolsonaro, vem acompanhada de uma forte opinião de que se o país tivesse mais investimento no Sistema Único de Saúde (SUS) estes números seriam bem menores.

“Só agora muitas pessoas entenderam o valor do SUS, que mesmo sucateado tem sido determinante para salvar vidas. Se as unidades de saúde tivessem mais equipadas, os profissionais de enfermagem tivessem mais treinamentos e os Equipamentos de Proteção Individual (EPI) fossem de melhor qualidade estes números seriam menores, não só para os trabalhadores da saúde mas para toda sociedade”, afirma.

Em julho, segundo relatório do Tribunal de Contas da União (TCU), o Ministério da Saúde, que está sem ministro há quase três meses, investiu apenas 26% dos recursos que recebeu para o combate a pandemia.  E é um dinheiro que poderia ter ajudado a salvar muitas vidas, aponta o enfermeiro.

Os profissionais de enfermagem, segundo Gilney, arriscam suas vidas para salvar outras vidas, muitas vezes, improvisando por falta de estrutura e trabalhando com equipamentos defasados. Além disso, falta tecnologia para monitorar e ter dados precoces do estado de saúde dos pacientes.

Profissionais da saúde são os mais impactados

São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Amazonas e Mato Grosso foram os estados que mais registraram óbitos de profissionais de enfermagem. São as mulheres, entre 41 e 50 anos, a maioria entre os que perderam a  vida para a Covid-19, segundo o Observatório da Enfermagem.

Entre os profissionais, os enfermeiros e enfermeiras são os que mais morrem pela doença, mas os trabalhadores da saúde como um todo são as maiores vítimas da pandemia.

Dos casos confirmados de Síndrome Gripal por Covid-19, segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), os que mais são contaminados são os técnicos e auxiliares de enfermagem (62.633), seguidos dos enfermeiros (26.555) e médicos (19.858).

No último dia 27 de julho, a Rede Sindical Brasileira UNISaúde, que representa mais de um milhão de profissionais do setor no país, denunciou Bolsonaro no Tribunal Penal Internacional (TPI), Corte sediada em Haia, na Holanda, que julga graves violações de direitos humanos, como genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra.  A organização acusa Bolsonaro de crime contra a humanidade e genocídio por sua atuação na pandemia.

Já é a quinta representação contra o governo.

217 médicos mortos pela Covid-19

Levantamento feito pelo Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), na última semana, quando o país registrou a marca de 100 mil óbitos pela doença, revelou que a categoria perdeu 217 colegas vítimas da Covid-19.  São Paulo, Rio de Janeiro e Pará foram os estados que mais perderam médicos que estavam na linha de frente do combate à doença.

A maioria dos mortos é homem com mais de 60 anos, grupo considerado de risco pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Desvalorização dos profissionais de saúde

Para a médica e diretora do Simesp, Daniela Menezes, não se pode normalizar as mortes e os casos de coronavírus como Bolsonaro tem tentado minimizar desde o início da pandemia. O governo, segundo ela, com este descaso de Bolsonaro com a doença, tratando como a gripezinha, desconsiderando as mortes da população e dificultando as ações de saúde no combate à doença, é que mantem uma curva ascendente.

Mas segundo a médica, a categoria também tem enfrentado um aprofundamento da precarização do trabalho nesta crise em todos os âmbitos. “Neste momento de pandemia ao invés da gente ver a valorização dos profissionais da saúde, o Estado tem contratado terceirizado, sem vínculo empregatício, sem garantia de direitos e muito menos garantias de retorno ao posto de trabalho caso o profissional precise de uma licença de saúde, inclusive nos casos de Covid-19”, ressalta.

Gilney também lembra o descaso com os profissionais de enfermagem, que não tem um piso salarial digno, mesmo com 9 Projetos de Lei (PL) em tramitação no Congresso Nacional.

“Nós estamos morrendo por dar a cara a tapa e combater esta doença de frente, assim como também fazemos no combate a várias doenças, como tuberculose, dengue, H1N1, cuidando de idosos e crianças sem olhar raça, credo e classe social. A valorização tinha que vir há muito tempo. As palmas da população a gente aceita como homenagem, agora dos políticos a gente quer mais!”, enfatiza o enfermeiro da capital Federal.

Além disso, aponta ele, Bolsonaro vetou uma indenização que poderia ressarcir os profissionais de saúde por terem combatido uma boa guerra e isso mostra mais uma vez o valor que este governo dá para a categoria.

“O soldado que vai para guerra e morre a família é indenizada e é condecorada e nós, que também estamos numa guerra contra um vírus que mata milhões de pessoas, não temos este direito. Esta doença pode ter sequelas e os profissionais de enfermagem muitas vezes são arrimos de famílias, como será a vida destes profissionais que sobreviverem e que estão combatendo esta guerra diariamente?”, questiona Gilney.